A alquimia das árvores

Sou todo ramos. Profuso e espalhado, roço-me no solo e caio nos céus. Intercessão sublunar entre camadas multifárias buscando além da lua, meu próprio caber-em-si pressupõe já algo não contido, água à qual se promete um transbordo. Meio de vida: casa de formigas na colina.

Meu ponto de partida é o caminho para o fim. Sou um sistema cujo ápice é a raiz mesma. Sou um discípulo capenga de Hermes: sempre estive aberto, mesmo quando, voluntariamente, me encapsulei. Pois querer me fechar já é a chave do cadeado, tudo aquilo que desejo já é um olhar para fora, mesmo quando meu ímpeto é de olhar para dentro. Não há contenção possível, eu penso porque me movo: única razão para não correr clorofila em minhas veias.

Mas, de resto, sou uma árvore peculiar, cuja poda já é crescer meus galhos, imagine. Mudou-se os propósitos, então se inverteu a ordem – sou origem em cima e reverbero embaixo (quanto a isso, meu mestre não faz objeção).

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Diagrama de anatomia humana retirado da Cyclopaedia, Dicionário Universal das Artes e Ciências, de 1728

Sou árvore porque faço ligações. Integrações subcutâneas, redes de sistemas, tranças de cabelo. Meus nervos e neurônios são operárias que conversam sobre o que vive fora do formigueiro; eu, o túnel, a passagem perenemente ampliada pelo andar microscópico e certeiro da turba de insetos.

Do tronco da árvore se preparará o nascimento das flores: os símbolos. Seres-fluxo encarregados de intermediar dois mundos e conceber frutos. Limites de aderência duplamente consignada, minhas flores carregam as possibilidades de crescimento do meu corpo, são o salto final para o inominável, é a ponte que me liga à vida das árvores. Poções fervidas em forno alquímico, os símbolos me permitem escolher o sabor e a textura dos bagos recolhidos. Ou, ao menos, pensar que escolho. E duvidar se escolho; ou se o devo escolher. E perguntar quem me diz o que poder e o que é uma possibilidade – e para quê posso.

Eu, solução alquímica, e portanto fruto, me pergunto se gerei os filhos de minhas flores. Ouço as respostas e sei que são nutritivas e mortas, como os sais minerais da água do riacho que me banha. Mas apenas eu o escuto, pois somente eu embelezo, com massa cinzenta, a sede que o córrego mata. Só eu me comparo às árvores, só eu me visto de sephiroth.

No entanto, para elas, não há nem chuva nem grilos brincando nos seus galhos, porque apenas dizer de brincadeiras já é uma extrapolação radical (como dizer de chuva ou de grilos). Nem verde é sua folhagem, nem há minhocas por sob o solo – há somente um capinar de tempo presente, que eu insisto em dividir, porque tenho memória.

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Árvore sefirótica cabalista, representando a cosmogonia e o princípio da existência humana. Micro e macrocosmo: “o que está em cima é como o que está embaixo / o que está dentro é como o que está fora”

Divido para contar, conto para entender, entendo para me mover e me movo porque existo. Mas não será meu relato a venda sobre meus olhos? Será que capinar o campo é melhor que ser o campo? Será que saber-me humano não é o que rouba de mim a arvoreza?

Meus frutos, que já não sei se os criei, vão ser o destino de todas as florestas, o alimento do chão que me sustenta. Mas minhas raízes herméticas me dizem que acima deles brilha um astro caloroso e impassível, o centro irradiante de sorrisos constantes e calmos, a fonte de fogo vivificante, a estrela-mãe das águas, do húmus e dos vasos. Penetrante e ubíqua, seu foco é em todo lugar e dentro da minha casca.

O Sol está além de mim, e algo me impele a deixá-lo me bronzear: sou fotossensível porque não posso ser fotossintético.

Recife, 31 de outubro/01 de novembro de 2017.

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